ARQUIVO SP: Ep 6. Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq)

ARQUIVO SP: Ep 6. Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq)

A origem da Esalq

As raízes da Esalq remontam à história de vida e aos ideais de seu grande patrono, Luiz de Queiroz. Vindo de uma rica família do Oeste Paulista, Queiroz passou 16 anos na Europa, onde estudou na célebre escola de agronomia de Grignon, na França. Retornou ao Brasil em 1873, profundamente influenciado pelo progresso científico e com o objetivo de instituir uma agricultura “racional e inteligente” para livrar o país de seu atraso secular.

O sonho tomou forma prática na Fazenda São João da Montanha, em Piracicaba. Documentos cartográficos históricos, como a detalhada “Planta da Fazenda São João da Montanha”, datada de 1894, e o primoroso “Projecto de Adaptação da Fazenda São João da Montanha para Escola Prática de Agricultura”, ilustram o extenso planejamento logístico e topográfico inicial para transformar a vasta propriedade rural no complexo de ensino que mudaria a história agrícola do país.

Para além de agrônomo, Queiroz era um empresário visionário e um abolicionista radical. Ao fundar uma fábrica têxtil em Piracicaba, importou maquinário da Inglaterra e contratou mão de obra livre (incluindo operários estrangeiros e mulheres), o que o colocou em choque direto com os republicanos escravistas da região, que defendiam uma abolição progressiva e indenizatória.

Após graves crises financeiras e disputas políticas contra o projeto concorrente do Dr. Domingos Jaguaribe, Luiz de Queiroz doou o prédio e a infraestrutura já iniciada ao governo estadual. A escola foi inaugurada de forma improvisada em 1891, dentro de um barracão de implementos agrícolas. Entretanto, somente após a intervenção decisiva do presidente do Estado de São Paulo, Jorge Tibiriçá, agrônomo formado na Alemanha, a instituição ganhou fôlego definitivo com a ordem para a construção de uma sede monumental, tão grande que “ninguém teria a audácia de destruí-la“.

Arquitetura, Poder e Memória

O documentário e os ricos arquivos iconográficos destacam o brilhantismo e as transformações arquitetônicas do campus em Piracicaba. O majestoso edifício principal da escola foi posicionado de forma cenográfica, no topo de um grande eixo gramado, projetado para impressionar e simbolizar o poder da nova ciência agrícola.

Figura 2. [ESCOLA DE AGRICULTURA, PLANTA DO FUNDAMENTO][19–?] Ref: Arquivo Público do Estado de São Paulo, Fundo: Companhia Paulista de Obras e Serviços (CPOS) (1901-2004).

A princípio, quando concluído em 1907, o prédio exibia um estilo muito mais leve. Em registros fotográficos belíssimos preservados e na pioneira revista “O Solo” de 1909, é possível observar essa estrutura arquitetônica original, repleta de varandas com pilares de ferro que remetiam diretamente à leveza da arquitetura ferroviária francesa. Desenhos técnicos de elevação de fachadas, preservados em papel vegetal e cianótipos, reforçam o esmero técnico exigido na construção desse complexo.

No entanto, nos anos 1940, o edifício passou por uma profunda modernização. Adquiriu sua atual feição “pesada” e simétrica, enquadrada em um ecletismo classicizante, combinando vitrais e pisos refinados. Toda essa ornamentação reflete também o trabalho dos Liceus de Artes e Ofícios, que formaram os trabalhadores técnicos (estucadores, vitralistas) responsáveis por adornar essas edificações no Brasil do século XX.

Outra joia arquitetônica é o prédio do atual Museu da Esalq, erguido em 1940 como moradia oficial dos diretores. Ele mistura as proporções clássicas das vilas palladianas italianas com fortes influências das majestosas fazendas de algodão do sul dos Estados Unidos, ostentando imponentes colunatas que parecem flutuar e varandas com gradis rendados em ferro.

Pesquisa, policultura e a prática no campo

Mais do que patrimônio histórico, a Esalq provou ser o motor prático da engenharia agrícola no Brasil, sendo a primeira unidade da USP a oferecer pós-graduação, em 1964. O valor dessa fundação na estrutura do Estado é ressaltado por Thiago Nicodemo, diretor do Arquivo, que destaca:

O diretor complementa ainda o peso da faculdade na estrutura política da época, afirmando que a instituição “pode ser considerada um dos pilares de uma articulação em São Paulo para expandir suas políticas públicas no pós-Constituição de 1891.”

Historicamente, Piracicaba já se diferenciava por não focar apenas na monocultura do café ou da cana. Luiz de Queiroz defendia arduamente a policultura para alimentar a população em larga escala.

Figura 3. Aulas práticas em campo na Semeadeira de Alfafa em Piracicaba, com o edifício principal da Esalq visível ao fundo, evidenciando a ligação direta entre teoria e prática rural.

Os documentos fotográficos recuperados para este episódio provam essa vocação diversificada. As imagens retratam lavouras experimentais da Esalq, como trabalho técnico de campo ilustrado pela fotografia da “Semeadeira de Alfafa“, acompanhada por grupos de especialistas e alunos.

Da mesma forma, o ensino laboratorial avançou rapidamente. Relatórios da agricultura da década de 1920 nos mostram o rigor científico do “Laboratório de Zoologia e Entomologia” e da “Seção de Avicultura”, onde pesquisas microscópicas eram levadas a efeito para garantir sanidade e qualidade produtiva. Portanto, hoje no enfrentamento da crise climática, é na junção da genética avançada, no cuidado profundo com o meio ambiente e os polinizadores, e na robótica aplicada que repousa o futuro da escola.

Imagens e Documentos que contam histórias

A partir do documentário e da pesquisa meticulosa no acervo que acompanha este episódio, é possível materializar a evolução da agricultura em São Paulo. Os documentos essenciais que compõem este episódio incluem:

  • Plantas Cartográficas e Projetos: A essencial Planta da Fazenda São João da Montanha (1894) e o Projecto de Adaptação (1895), além de belíssimas plantas arquitetônicas em papel vegetal e plantas no estilo “blueprint” (cianótipos) do Colégio Internato, que detalham os andamentos e a grandiosidade métrica do edifício.
  • Registros da “Ecole Agricole” Original: Fotografias raras de c. 1900 a 1928, que flagram o edifício principal e as alas varandadas em sua arquitetura de inspiração francesa, muito antes da reestilização pesada dos anos 1940.
  • A Policultura em Ação: Fotografias históricas que documentam lavouras de fumo, vastos arrozais em Itu, cultura de legumes e robustas plantações de milho e feijão, consagradas à visão plural e alimentar do agronegócio que a escola buscava fomentar.
  • Laboratórios e Ciência: Fotografias extraídas dos Relatórios da Agricultura de 1927 e 1928 mostrando o interior do “Laboratório de Zoologia e Entomologia” e as instalações avançadas do “Pavilhão de Horticultura” e da Seção de Avicultura.
  • Pioneirismo na Imprensa Agrícola: Páginas da revista científica e agrícola “O Solo” (fevereiro a julho de 1909), que noticiou e imortalizou com orgulho a nova fachada e os complexos da nascente faculdade.

Assista ao episódio completo veiculado pela UNIVESP TV nas plataformas digitais e mergulhe nesta viagem onde a arquitetura, a ciência do solo e o futuro verde do Brasil se encontram.

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