Rebranding do Arquivo Público do Estado de São Paulo: identidade visual e transformação digital
Prof. Dr. Thiago Nicodemo [1]
Guilherme Vieira [2]
A identidade visual de uma instituição pública não se limita a um conjunto de formas, cores e tipografias. Ela expressa valores, missão institucional e modos de relação com a sociedade. O processo de rebranding do Arquivo Público do Estado de São Paulo parte dessa compreensão ampliada e integra uma transformação institucional mais profunda, alinhada às mudanças estruturais vividas pelo Arquivo nos últimos anos, especialmente no contexto da digitalização e das novas tecnologias da informação.

A identidade visual anterior do Arquivo Público do Estado de São Paulo cumpriu, durante muitos anos, um papel fundamental de reconhecimento institucional. Seu desenho estava fortemente associado à materialidade do edifício-sede e à ideia de solidez, permanência e guarda, atributos historicamente vinculados à função dos arquivos públicos. A tipografia e a composição mais estática reforçavam a noção de estabilidade administrativa e de autoridade institucional, características centrais para um órgão responsável pela custódia da memória do Estado. No entanto, essa linguagem visual refletia um contexto anterior à consolidação dos arquivos digitais, no qual a comunicação institucional ainda estava predominantemente orientada ao suporte físico e a públicos especializados. A atualização da identidade visual não nega esse legado; ao contrário, parte dele como base simbólica para uma reinterpretação contemporânea, capaz de dialogar com os desafios da preservação digital, da circulação da informação em rede e da ampliação do acesso em ambientes digitais.
Ao longo de mais de um século de atuação, o Arquivo Público consolidou-se como guardião da memória administrativa do Estado, assegurando transparência, preservação documental e acesso à informação. No entanto, a crescente produção de documentos digitais, a necessidade de políticas de preservação digital de longo prazo e a ampliação do acesso remoto aos acervos impuseram novos desafios e exigiram a atualização de práticas, linguagens e formas de comunicação institucional.

Nesse cenário, a renovação da identidade visual surge como um desdobramento natural desse movimento de transformação. A nova marca busca traduzir visualmente a coexistência entre tradição e inovação, articulando a solidez histórica do Arquivo com a fluidez dos ambientes digitais. Elementos gráficos mais sintéticos, formas geométricas estruturadas e uma paleta cromática contemporânea comunicam clareza, organização e abertura; princípios centrais da Arquivística e da Ciência da Informação na atualidade.
A identidade visual passa a expressar conceitos como transparência, interoperabilidade e mediação do conhecimento. Esses princípios orientam tanto a gestão dos documentos digitais quanto a relação do Arquivo com sistemas, plataformas, repositórios e políticas públicas de informação. Ao mesmo tempo, a linguagem visual fortalece a comunicação com públicos diversos, ampliando o alcance das ações de difusão cultural, científica e educativa da instituição.
Nesse contexto de renovação institucional, o Arquivo Público estruturou uma arquitetura de marcas próprias para seus principais produtos de difusão, criando três novas identidades visuais específicas: Revista do Arquivo, Podcast do Arquivo e Escola do Arquivo. Cada marca foi concebida como um desdobramento coerente da identidade institucional, preservando unidade gráfica, tipográfica e conceitual, ao mesmo tempo em que responde às particularidades de seus suportes e públicos. Essa estratégia permite que ações editoriais, educativas e de comunicação científica tenham maior clareza, fortalecendo o Arquivo como produtor ativo de conhecimento, formação e debate público, e não apenas como instância custodial da memória documental.



O rebranding também acompanha a ampliação do papel do Arquivo como agente ativo no ecossistema digital, dialogando com iniciativas de ciência aberta, acesso à informação, inovação tecnológica e formação de profissionais. A nova identidade visual foi pensada para operar de forma integrada em ambientes físicos e digitais, garantindo coerência gráfica em sistemas de gestão documental, plataformas online, publicações, ações educativas e produtos de comunicação institucional.
Importante destacar que essa atualização não representa um rompimento com a memória institucional. Ao contrário, a história, a arquitetura e os símbolos do Arquivo permanecem como referências fundamentais, agora reinterpretadas sob uma linguagem contemporânea.


Dessa forma, o processo de rebranding do Arquivo Público do Estado de São Paulo vai além da dimensão estética. Trata-se de um reposicionamento simbólico e comunicacional que reafirma o Arquivo como espaço de memória, produção de conhecimento e inovação, comprometido com a democratização do acesso à informação. Ao atualizar sua identidade visual, a instituição projeta-se para o futuro, mantendo-se fiel à sua responsabilidade histórica e consolidando seu papel como referência arquivística no Brasil.
[1] Diretor do Arquivo Público do Estado de São Paulo, Secretário Executivo (2024-) e ex-Presidente da Comissão Estadual de Acesso à Informação (CEAI, entre 2021-2023), Professor de Teoria da História da UNICAMP e responsável pelo Centro de Humanidades Digitais do IFCH-UNICAMP. Formado em História pela Universidade de São Paulo e em Direito pela PUC-SP, mestre e doutor em História Social pela USP e duas vezes pós-doutor pelo Instituto de Estudos Brasileiros da USP, ambas com apoios FAPESP, e livre-docente pela UNICAMP. Autor dos livros “Urdidura do Vivido” (EDUSP, 2008), “Alegoria Moderna” (UNIFESP, 2014) e de “Uma Introdução à Historiografia Brasileira, 1870-1970” (2018, FGV, com Pedro A. C. dos Santos e Mateus Pereira).
[2] Coordenador de Difusão de Acervos no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Doutorando em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo, técnico em museologia, bacharel e mestre em História pela Universidade Federal de São Paulo, com habilitação em Memória e Patrimônio.
