Por uma memória do Complexo Psiquiátrico de Juquery

A desativação definitiva do Complexo do Juquery encerrou um ciclo de mais de um século de internação psiquiátrica compulsória no Brasil, mas não apagou a complexidade de sua história. Pelo contrário, o fim das atividades asilares transferiu para a Arquivologia, a História, a Arquitetura, o Restauro e as políticas públicas o monumental desafio de investigar e lidar com os vestígios deixados por essa engrenagem estatal de controle social um esforço multidisciplinar que, para ter êxito, exige estar profundamente articulado por um sólido plano de memória.
— Thiago Nicodemo, Diretor do Arquivo Público do Estado de São Paulo.
A Cidade em Ebulição e a Lógica do Isolamento
Para compreender o Juquery em sua totalidade, é necessário estabelecer um fio condutor que una a explosão demográfica paulista que justificou sua criação, a arquitetura disciplinar que o materializou e, de forma central, o papel ativo do Arquivo Público no resgate e na curadoria ético-histórica dessa memória.
A origem do Juquery é inseparável das profundas transformações urbanas e demográficas vivenciadas por São Paulo na virada do século XIX para o XX, momento exato de sua idealização. Impulsionado pela economia cafeeira e pela autonomia administrativa e financeira garantida pelo federalismo da Constituição da República de 1891 (e do Estado em 1892)1 , o Estado assumiu as rédeas de vigorosas políticas higienistas e de controle urbano2,3.
Impulsionada por um vertiginoso inchaço populacional — de 31.385 habitantes em 1872 para 239.820 em 1900 —, São Paulo assistiu ao colapso de sua primeira iniciativa de confinamento psiquiátrico. Criado com o intuito de retirar os doentes mentais dos abusos das cadeias públicas, o antigo Hospício de Alienados operou inicialmente de forma bastante precária a partir de 1852, em um imóvel alugado na Rua São João. Diante da falta de estrutura, a instituição foi transferida em maio de 1862 para um grande casarão de taipa de pilão na Ladeira da Tabatinguera, na Várzea do Carmo, às margens do Rio Tamanduateí

Após operar de forma bastante precária desde 1852 em um imóvel alugado na Rua São João, a instituição foi transferida em maio de 1862 para um grande casarão na Ladeira da Tabatinguera, na Várzea do Carmo, às margens do Rio Tamanduateí. O local abrigava o antigo Seminário das Educandas e nunca havia sido planejado com arquitetura hospitalar, sendo apenas uma residência adaptada de construção fraca, cujo vigamento logo passou a ameaçar ruína.

Como o prédio não tinha separações físicas adequadas e a população asilar crescia dia após dia, as condições internas eram desumanas. A falta de infraestrutura era tamanha que as mulheres, durante a noite, precisavam ser amarradas pelas mãos e pés para evitar o contato com os homens nos mesmos pavilhões. Além disso, o hospício sofria com arrombamentos de portas por pacientes em surto e epidemias letais, como o surto de varíola de 1874 que dizimou internos e funcionários. O local representava tudo o que a psiquiatria da época condenava: um mero “depósito” insalubre de seres humanos, sem aeração e sem espaço para laborterapia4.
Simplificando para fins didáticos, o alvo dessas internações compulsórias não se restringia apenas aos doentes mentais, mas englobava todos que fugiam à régua de normalidade imposta pela sociabilidade burguesa: mulheres que desafiavam o patriarcado (como mulheres autônomas e mães solteiras), homossexuais, imigrantes, epiléticos e uma crescente população em situação de rua. Confiná-los era visto, à época, como uma medida perfeitamente “científica” e razoável para a chamada defesa social. No entanto, o conceito de quem seria identificado como “alvo” não era estático; ele foi se transmutando ao longo dos anos, acompanhando rigorosamente as mudanças de conveniência e as novas regras que a sociedade burguesa trazia consigo. Se durante a fase aguda de expansão urbana os “indesejáveis” eram vistos como um subproduto incômodo da exclusão nas ruas, em períodos de recrudescimento autoritário e governos militares, a régua da exclusão estendeu-se para encarcerar também os opositores e “inconvenientes políticos”, evidenciando o uso do aparato médico e psiquiátrico como ferramenta política.5
O Território Estratégico: Águas da Cantareira e a Ferrovia
A escolha do território no vale do rio Juqueri, cujas terras começaram a ser adquiridas em 1895, não foi aleatória. A geografia atendia aos imperativos do paradigma higienista e de logística, do isolamento proposital.
Por um lado, o isolamento necessário para a instituição era compensado por uma eficiente interligação com a capital. A estrada de ferro São Paulo Railway (Santos-Jundiaí) em 1867, impulsionada pela economia cafeeira, mas a estação de parada local do Juquery foi inaugurada especificamente em 1888, tornando-se uma via de acesso crucial imediatamente anterior à construção do hospital6.

Por outro lado, a proximidade com a Serra da Cantareira associava o local à vocação para a saúde e à pureza do ar. O desenvolvimento do complexo do Juquery ocorreu de forma paralela e umbilicalmente conectada à consolidação do “sistema Cantareira antigo”. Entre 1893 e 1894, a recém-fortalecida Repartição de Águas e Esgotos passou a tratar a serra como um sistema técnico integrado. Foram construídas pequenas barragens e reservatórios — como o do Engordador — para regularizar a vazão de água para a metrópole que sofria com o inchaço populacional. Para proteger esse manancial, o Estado iniciou a demarcação de terras, desapropriações e a restrição do uso do solo no entorno da serra7.

A história do Juquery e do seu território demonstra, portanto, que a água, a ferrovia e a expansão urbana funcionavam como uma tríade inseparável. A ferrovia foi o instrumento que viabilizou a proteção e exploração do manancial da Cantareira; o manancial, por sua vez, era a condição de sobrevivência para sustentar a explosão demográfica e industrial da cidade; e, no centro dessa revolução urbana, o Juquery erguia-se para isolar aqueles que não se enquadravam nessa nova sociedade8.
Arquitetura como Dispositivo de Contenção
O crescimento monumental do Juquery foi uma adaptação forçada ao vertiginoso inchaço populacional. Para dar conta dessa exclusão social, o projeto articulado do arquiteto Ramos de Azevedo estruturou uma verdadeira “cidade autônoma” e hiperespecializada, composta por 34 edifícios. Muito além do Hospital Central e das Colônias segregadas por sexo e patologia, o complexo contava com uma infraestrutura completa de laborterapia e serviços, incluindo olaria, padaria, lavanderia, oficinas, laboratórios e vilas médicas.

[Complexo Hospitalar do Juqueri], Franco da Rocha (SP), [19–], P&B. Acervo dos municípios brasileiros, IBGE, (cód. 3516408).
Apesar dessa hiperespecialização espalhada por múltiplos edifícios, a arquitetura era profundamente integrada. A implantação obedeceu a uma rígida lógica de “campus“, na qual o controle ininterrupto dos fluxos humanos era garantido por um extenso sistema de marquises (galerias cobertas em ferro) que emanavam do prédio central.


O formato desse caminho construído pelas marquises era justamente pensado para parecer um caminho definido para o paciente, sem mudanças de rota. Essas estruturas funcionavam como corredores compulsórios que condicionavam fisicamente o espaço: o indivíduo não tinha uma via livre para fugir ou se desviar. Ele era forçosamente conduzido em um processo linear que interligava os prédios, passando por alas mais brandas (como os refeitórios) até culminar nas alas de internação compulsória6.
Nas extremidades do complexo, ergueram-se as “rotundas“, alas destinadas aos pacientes que demandavam controle disciplinar pleno. Inspiradas no modelo do panóptico de Jeremy Bentham, possuíam celas com janelas elevadas e pesadas portas de metal. O objetivo era a introjeção do poder: forçar o indivíduo a agir como se estivesse sob vigilância ininterrupta, totalmente condicionado pela arquitetura prisional7.


A Expansão do Controle: Pinel e Manicômio Judiciário
O sucesso da política de encarceramento científico fomentou ramificações pelo território paulista. Em 1929, o psiquiatra Antônio Carlos Pacheco e Silva fundou o Sanatório Pinel, no bairro de Pirituba. Destinado à elite, o asilo comprovou que a implacável régua de normalidade da época não poupava a própria alta sociedade. Cartas interceptadas revelam internações forçadas a mando de parentes, demonstrando que o ‘expurgo familiar‘ e a eugenia operavam independentemente da classe financeira: as famílias ricas também encarceravam seus próprios membros caso desviassem das rígidas convenções — o que incluía, por exemplo, o isolamento de mulheres que apresentassem um mero ‘interesse excessivo pela leitura’8. A instituição manteve-se privada até ser adquirida pelo Estado em 1944. Hoje, o inestimável acervo documental do Sanatório Pinel está sob a guarda definitiva do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Paralelamente, no interior do complexo do Juquery, a psiquiatria e a lógica criminal fundiram-se de vez. O Manicômio Judiciário do Estado foi instituído legalmente em 1927, tendo suas obras concluídas no final de 1933 e sendo inaugurado em 19349. A função desse espaço era atuar como um modelo misto entre prisão e hospital de isolamento: ele partia do pressuposto de que o indivíduo que cometeu um crime, caso constatado como mentalmente instável (inimputável), não poderia cumprir pena na cadeia comum, devendo ser encaminhado para a tutela psiquiátrico-penal10.

SILVA, A. C. Pacheco e. O Manicômio Judiciário do Estado de São Paulo: Histórico, Instalação, Organização e Funcionamento (1935).
O espaço operava sob uma arquitetura de segurança máxima. Suas celas possuíam pesadas portas blindadas com pequenas janelas de vigia e caixas de descarga externas, garantindo o rigor do isolamento prisional sob o pretexto de tratamento médico11. Assim como o Pinel, todo o acervo histórico de prontuários do Manicômio Judiciário também foi resgatado e encontra-se preservado pelo Arquivo12.
Juquery: Do Auge ao Incêndio
O Complexo do Juquery atingiu o seu ápice de encarceramento e superlotação na década de 1960. Segundo registros acadêmicos, a instituição chegou a abrigar o pico exato de 14.393 internos simultâneos no ano de 1965 — flutuando em estimativas de até 16.000 pessoas sob custódia ao longo da década13. Contudo, entre as décadas de 1970 e 1980, o modelo asilar passou a sofrer duras críticas; a luta antimanicomial e a oposição à internação compulsória ganharam força, iniciando um processo de desinstitucionalização e esvaziamento gradativo dos pavilhões.
Foi justamente nesse momento de queda no número de pacientes que o Juquery sofreu um golpe fatal em sua estrutura e na sua memória. Em dezembro de 2005, um incêndio de grandes proporções devastou o Prédio da Administração Central — edifício histórico construído em 1901 que não apenas era o coração burocrático do complexo, como também a antiga residência dos diretores e abrigo da biblioteca médica. Especula-se as causas do fogo, que vão desde descargas elétricas decorrentes da chuva até hipóteses de incêndio criminoso, mas o fato indiscutível é que a tragédia foi a “gota d’água”, atuando como um ponto final simbólico para a urgência em mudar as políticas do complexo.

O fogo aniquilou um volume monumental de dados históricos: 136 mil prontuários brutos viraram cinzas, além de 15 mil livros e documentos raros14.
Diante dessa lacuna documental irrecuperável gerada pelas chamas — que consumiram em grande parte os prontuários criados entre os anos de 1957 e 2005 —, o esforço de resgate do Arquivo Público apoia-se hoje em um tesouro paralelo: as fichas de entrada. Estimadas em cerca de 300.000 unidades, essas fichas sobreviveram em outros arquivos e hoje, para dezenas de milhares de pacientes, são a única prova física de que eles um dia existiram e passaram pelas dependências do Juquery.
Preservação documental

À medida que o complexo foi desativado e as pessoas que ali viveram deixaram a instituição, a memória de suas trajetórias passou a depender da preservação da imensa massa documental que ficou para trás. O marco histórico desse resgate ocorreu em 2021: foi exatamente quando o Juquery fechou as portas e atendeu seu último paciente que os primeiros prontuários começaram a ser transferidos em massa para o Arquivo Público do Estado de São Paulo. É importante frisar que as negociações para esse processo de recolhimento já haviam sido iniciadas logo após o trágico incêndio de 2005, mas ainda não haviam, de fato, sido concretizadas até o fechamento definitivo.
A atuação da instituição não se resume ao recebimento documental; o Arquivo já recebeu praticamente todos os prontuários da instituição, totalizando mais de 66.000 prontuários analíticos alocados em cerca de 2.000 caixas documentais.

Para compreender a magnitude desse resgate, é preciso entender a função dos registros. O prontuário é o principal documento da instituição porque ele conta tudo de forma detalhada. Ele é o conjunto de atos de tratamento e acompanhamento clínico de um paciente, além de registrar, também, a vida funcional dos funcionários que trabalharam lá15. Surpreendentemente, o prontuário de número um resgatado remonta a 1889 — ou seja, é mais antigo que a própria fundação da instituição. Isso evidencia a transferência burocrática da vida de internos vindos do antigo Hospício da capital, cujos prontuários viajaram fisicamente com eles para o Juquery.
Para que essa imensa massa de prontuários tivesse conexão e fosse de fácil rastreio, foi criada uma macroatividade paralela. Enquanto o prontuário traz a história de forma detalhada, a ficha era a forma de acessar os prontuários. O Arquivo estima recolher lotes imensos, contendo aproximadamente 300 mil fichas de catalogação. Existem diferentes tipos de ficha: fichas com fotografias de identificação tiradas logo na chegada (em perfis semelhantes aos de delegacias) e fichas com as impressões digitais dos internos. Elas se constituem em um registro histórico extremamente rico. Esse fichário tornou-se a ferramenta documental primordial para comprovar a passagem de milhares de indivíduos que tiveram seus prontuários apagados pelas chamas.

O esforço de curadoria abrange também uma diversidade impressionante de outros arquivos sensíveis. Os tipos de documentos que o Arquivo vai receber e já está processando incluem: negativos de vidro, fotografias cotidianas, cartas escritas pelos internos, mapas e plantas arquitetônicas originais, além de centenas de livros da biblioteca da direção. A isso soma-se a recuperação de documentos de altíssima sensibilidade bioética, como os livros de necropsia do serviço de anatomia, que servem de lastro documental a um histórico museu de centenas de cérebros conservados em formol, hoje sob a guarda da Unifesp.

O trato com essa documentação exige rigor ético. Por lidar com um forte estigma social médico, a documentação psiquiátrica é considerada estritamente sensível. Nesses termos, o acesso deve levar em conta e observar a Lei de Acesso à Informação (LAI) e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) 16. Há um rígido controle de acesso, mas é perfeitamente possível garantir a pesquisa visando a defesa dos Direitos Humanos e o avanço científico. Para isso, pesquisadores podem acessá-los quando comprovado o motivo da pesquisa e firmado um compromisso claro com o tratamento dos dados, mediante Termo de Responsabilidade que obriga a anonimização das informações e a proteção à identidade das famílias.
O Paradoxo da Memória: Ressignificando a Dor e o Orgulho
A custódia documental realizada pelo Arquivo Público converge para uma proposta inovadora de ressignificação não apenas física do território do Juquery, mas da ressignificação do legado em toda a sua dimensão: da arquitetura, dos documentos e da memória. Contudo, essa ressignificação esbarra em um dos dilemas éticos mais brutais da historiografia contemporânea: como transmutar um palco de atrocidades e violências de Estado que é, simultaneamente, o alicerce identitário e o maior motivo de orgulho de uma cidade inteira?

Franco da Rocha não apenas circunda o Juquery; a cidade emanou dele. Para milhares de famílias da região, o complexo é o local onde suas vidas, seus sustentos e seus laços comunitários mais profundos foram forjados. As memórias que a população local guarda da instituição — mesmo cientes das extremas dificuldades — são memórias de carinho e pertencimento. Construir a história do Juquery focando apenas na denúncia institucional seria cometer um novo apagamento histórico contra a classe trabalhadora que dedicou sua vida ao local.

Portanto, a diretriz para este novo espaço exige um senso curatorial implacável e equilibrado. Tudo deve girar em torno da humanização: é preciso resguardar o direito à privacidade das famílias afetadas, ao mesmo tempo em que se busca nomear os protagonistas e as vítimas dessa história. Evidentemente, a revelação de identidades só pode ocorrer com a permissão dos próprios ou de seus herdeiros. Isso exige uma comunhão de escuta entre os ex-funcionários, a comunidade local, as vítimas e seus familiares, configurando um trabalho de memória individualizado e delicado para que a história seja respeitada e se faça presente no espaço.
Para solucionar esse paradoxo prático, propõem-se ações que unem o trauma ao afeto: campanhas de História Oral para dar voz ao tecido social da cidade; a repatriação pública de “objetos de afeto” (como carimbos, toalhas, ferramentas e crachás guardados nas casas dos antigos funcionários) para humanizar a narrativa; e a consolidação de um museu/memorial com visitação pública no espaço da Rotunda Feminina, integrando intimamente os documentos ao espaço expositivo.

A culminância desse senso reparatório ocorrerá na própria arquitetura da exclusão, que cederá espaço à memória e à educação. Toda essa reocupação física, no entanto, obedece ao rigoroso peso patrimonial do local: o complexo passou por um processo de tombamento pelo Condephaat (iniciado em 1986 e publicado oficialmente em 2011), que reconheceu a magnitude e garantiu a proteção de 34 edifícios históricos17. Sob essa chancela de preservação, a Rotunda Feminina — o emblemático panóptico disciplinar — encontra-se em processo de restauro para abrigar o futuro Memorial do Juquery.

Em forte articulação interinstitucional — que conta com a ligação direta e o apoio estratégico da Prefeitura de Franco da Rocha —, o Instituto Federal de São Paulo (IFSP) recebeu parte das terras para instalar um campus universitário. O marco dessa doação ocorreu em 3 de julho de 2026, com o lançamento do edital de R$ 37 milhões para a reforma inicial dos prédios.18 Embora haja previsão para o início das aulas, a restauração plena da dimensão monumental exigirá, no futuro, uma injeção muito maior de recursos, o que reforça a necessidade contínua dessa união de forças entre o Município, o Estado e a União. O campus atuará, inicialmente, sob dois eixos aglutinadores: Saúde e Gestão.
De forma sinérgica, propõe-se que uma segunda sede do Arquivo Público se integre a esse espaço educacional, fixando-se em uma área de mais de 6 mil metros quadrados no prédio do Antigo Hospital de Clínicas. O objetivo é incluir um terceiro eixo formativo voltado à gestão documental, criando um curso superior em Arquivologia. Essa integração aliaria a teoria à prática laboratorial in loco, permitindo que os alunos atuem no processamento das centenas de milhares de registros e fichas do Juquery, unindo, em definitivo, a preservação do passado à construção do futuro científico da região.
Ao confrontar a dureza irrefutável de milhares de prontuários resgatados com a potência libertadora das obras da pioneira arteterapia de Osório César19, a preservação do complexo torna-se um ato ativo de reparação histórica. Dessa forma, ao equilibrar a denúncia do trauma institucional com o respeito pelas memórias de pertencimento da comunidade local, o Juquery deixa de ser um palco de silenciamento para se consagrar como um espaço definitivo de emancipação, ciência e defesa inegociável dos Direitos Humanos.

- PEREIRA, Fábio Franco. A Federação no Constitucionalismo Brasileiro. São Paulo: Faculdade de Direito da USP, 2010. ↩︎
- ELAROLLI JUNIOR, Rodolpho. Poder e saúde: as epidemias e a formação dos serviços de saúde em São Paulo. São Paulo: Editora Unesp, 1996. ↩︎
- PEREIRA, Bruna S. B.; MATOS, Maria Izilda S. de. Corpos e mentes sob controle: institucionalização da medicina e da psiquiatria em São Paulo. Revista História (Goiânia), v. 28, 2023. ↩︎
- PEREIRA, Lygia Maria de França. Franco da Rocha e os usos do trabalho no hospício. Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo, v. 9, n. 2, 1998; e PIZZOLATO, Pier Paolo Bertuzzi. O Juquery: sua implantação, projeto arquitetônico e diretrizes para uma nova intervenção. Dissertação (Mestrado) – FAU-USP, São Paulo, 2008. ↩︎
- SEVCENKO, Nicolau (Org.). História da vida privada no Brasil, vol. 3 (República: da Belle Époque à Era do Rádio). São Paulo: Companhia das Letras, 1998, Introdução ↩︎
- MAZZOCO, Maria Inês Dias; SANTOS, Cecília Rodrigues dos. De Santos a Jundiaí: nos trilhos do café com a São Paulo Railway. São Paulo: Magma Editora Cultural, 2005. ↩︎
- FONSECA, Filomena Pugliese. As águas do passado e os reservatórios do Guaraú, Engordador e Cabuçu: um estudo de arqueologia industrial. Tese (Doutorado em Arqueologia) – Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. ↩︎
- LANGENBUCH, Juergen Richard. A Estruturação da Grande São Paulo: estudo de geografia urbana. Rio de Janeiro: IBGE, 1971. ↩︎
- PIZZOLATO, Pier Paolo Bertuzzi. O Juquery: sua implantação, projeto arquitetônico e diretrizes para uma nova intervenção. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), São Paulo, 2008 ↩︎
- FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Editora Vozes, 1987; e SEGAWA, Hugo. Casas de Orates. São Paulo: Edusp, 2002 ↩︎
- ACKEL, Antônio. Transcrição de cartas de pacientes do antigo Sanatório Pinel. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Citado em: FERREIRA, Ivanir. Pacientes do Sanatório Pinel incluíam homossexuais e mulheres cultas. Jornal da USP, São Paulo, 14 dez. 2018. ↩︎
- COSTA, Maria Izabel Sanches. Política de Saúde-Política De Segurança: Manicômio Judiciário, entre o Hospital e a Prisão. Revista do Arquivo Público do Estado de São Paulo, 2017. ↩︎
- PAULA, Augusto Nalini Aigner de. Os Prontuários do Manicômio Judiciário do Estado de São Paulo (1897-1930) como fonte para o historiador. Oficina do Historiador, PUCRS, v. 11, n. 2, 2018. ↩︎
- SILVA, A. C. Pacheco e. O Manicômio Judiciário do Estado de São Paulo: Histórico, Instalação, Organização e Funcionamento. São Paulo: Oficinas Gráficas do Hospital do Juqueri, 1935. ↩︎
- Fundo Manicômio Judiciário de Franco da Rocha. Guia do Acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo (APESP). Código de referência: 17G1. ↩︎
- PIZZOLATO, Pier Paolo Bertuzzi. O Juquery: sua implantação, projeto arquitetônico e diretrizes para uma nova intervenção. Dissertação (Mestrado) – FAU-USP, São Paulo, 2008. ↩︎
- FOLHA DE S.PAULO. Memória nas cinzas: Fogo destrói história de pacientes do Juquery. Cotidiano. São Paulo, 21 dez. 2005. ↩︎
- PAULA, Augusto Nalini Aigner de. Os Prontuários do Manicômio Judiciário do Estado de São Paulo (1897-1930) como fonte para o historiador: Possibilidades e Limitações. Oficina do Historiador, Porto Alegre, EDIPUCRS, v. 11, n. 2, jul./dez. 2018. ↩︎
- BRASIL. Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011 (Lei de Acesso à Informação) e Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018 (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais). ↩︎
- SÃO PAULO. Resolução SC-13, de 09/03/2011. Diário Oficial do Estado de São Paulo, 31 mar. 2011 (Republicado em 17/05/2011). ↩︎
- PORTAL DOIS PONTOS. Com investimento de R$ 37 milhões, Instituto Federal no Complexo do Juquery terá ato com ministro nesta sexta (03). Franco da Rocha, 03 jul. 2026. ↩︎
- RIBEIRO, Elielton. O processo de legitimação das produções artísticas no Juquery: de Osório Cesar ao Museu de Arte Osório Cesar (MAOC). Anais do XV Encontro de História da Arte, Unicamp, 2021. ↩︎
