Escola do Arquivo: Aula inaugural

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Aula inaugural da Escola do Arquivo marca novo ciclo de formação em gestão e preservação documental

A aula inaugural da Escola do Arquivo, realizada em 13 de novembro de 2025, marcou oficialmente o início de um dos projetos mais ambiciosos do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Transmitido ao vivo pelo YouTube e pelo Instagram, com público presencial no auditório da instituição, o evento reuniu servidores públicos, pesquisadores, estudantes e profissionais de arquivos, bibliotecas e museus de diversas regiões do país, evidenciando a forte demanda por formação qualificada na área de gestão e preservação documental, especialmente no campo digital.

Para assistir a gravação completa da aula inaugural, acesse o link abaixo:

Formação como política pública e compromisso social

A abertura institucional foi conduzida por Thiago Lima Nicodemo, diretor do Arquivo Público do Estado de São Paulo, que apresentou a Escola do Arquivo como uma iniciativa estratégica de médio e longo prazo. Segundo o diretor, a proposta central é consolidar a formação continuada como eixo estruturante da política arquivística estadual, articulando teoria, prática e responsabilidade institucional.

Entre os principais anúncios, destacou-se o projeto de criação de um curso de especialização em gestão documental, com carga horária prevista de cerca de 450 horas, organizado em módulos fundamentais, como tratamento de acervos, paleografia, conservação e gestão de riscos, gestão de instituições arquivísticas, gestão documental e preservação digital. A expectativa é iniciar a primeira turma após a aprovação pelo Conselho Estadual de Educação, com abertura prioritária para servidores do Estado, mas com perspectiva de ampliação para outros públicos.

Nicodemo ressaltou que a Escola nasce com vocação pública e social: além da especialização, estão previstos cursos satélites de curta duração, voltados a temas urgentes e contemporâneos, como preservação digital, gestão de riscos em instituições de memória e a interface entre acesso à informação, transparência e proteção de dados pessoais (LAI e LGPD). Para o diretor do Thiago Nicodemo:

O Arquivo precisa abrir suas portas para a sociedade e compartilhar conhecimentos que ajudam a mover a própria vida pública”.


Preservação digital: desafio técnico, político e humano

A aula inaugural teve como convidado principal o professor Millard Schiller, gestor de acervos do Instituto Moreira Salles e professor adjunto de preservação digital no mestrado em Museologia da Johns Hopkins University. Em diálogo direto com Nicodemo, Schiller apresentou uma reflexão ampla e crítica sobre os dilemas da preservação digital no Brasil e no mundo.

Para o professor, preservar digitalmente não é apenas uma questão tecnológica, nem se resolve com a simples adoção de sistemas ou armazenamento em nuvem. Trata-se de um processo intencional, que envolve decisões conscientes sobre o que será lembrado e o que será esquecido, exigindo políticas institucionais claras, pessoas qualificadas e práticas sustentáveis. Para Schiller:

“A preservação digital é invisível. Ela só existe quando há consciência da perda e responsabilidade sobre a memória”.

Schiller também chamou atenção para os riscos da acumulação indiscriminada de dados, comparando o ambiente digital a grandes “lixões invisíveis”, nos quais a informação se perde por excesso, obsolescência tecnológica e falta de critérios. Nesse sentido, defendeu a importância da avaliação, seleção e descarte responsável, tanto em acervos institucionais quanto na produção cultural e administrativa contemporânea.


Arquivos, memória e direitos

Outro eixo central do debate foi a relação entre arquivos, direitos humanos e cidadania. Nicodemo ressaltou que os arquivos públicos têm papel essencial na certificação de direitos, na prestação de contas do Estado e na preservação de evidências que sustentam políticas de reparação, memória e justiça. Ao mesmo tempo, ambos destacaram a emergência dos arquivos comunitários, produzidos por coletivos, movimentos sociais e grupos historicamente silenciados, que enfrentam enormes desafios para preservar seus registros no ambiente digital.

Nesse contexto, a Escola do Arquivo foi apresentada como um espaço privilegiado para articular formação técnica, reflexão ética e construção de redes colaborativas, capazes de fortalecer tanto instituições consolidadas quanto iniciativas comunitárias.

Um projeto em construção coletiva

O grande interesse do público, evidenciado pelo número expressivo de inscritos no primeiro curso anunciado, confirmou a relevância da iniciativa e os desafios futuros da Escola. Para Nicodemo, o principal problema já não é despertar interesse, mas como ampliar o acesso à formação sem perder a dimensão prática, essencial para lidar com a complexidade real dos acervos.

Ao final do encontro, a aula inaugural reafirmou a Escola do Arquivo como um projeto estruturante, comprometido com a qualificação técnica, a inovação responsável e o papel social dos arquivos em uma sociedade cada vez mais digital. Mais do que um espaço de cursos, a Escola se apresenta como um lugar de encontro, reflexão e construção coletiva do futuro da memória pública.

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Guilherme Lopes Vieira