ARQUIVO SP: Ep 01. Hospedaria dos Imigrantes

ARQUIVO SP: Ep 01. Hospedaria dos Imigrantes
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A Hospedaria de Imigrantes e a construção de São Paulo

Por décadas, milhões de pessoas atravessaram oceanos, trilhos e fronteiras internas para chegar a um mesmo lugar. No bairro do Brás, em São Paulo, a Hospedaria de Imigrantes foi o primeiro abrigo de quem buscava trabalho, futuro e pertencimento. Mais do que um edifício, ela se tornou símbolo de esperança — e também de controle, disciplina e política pública.

Ao desembarcar no Porto de Santos, milhares de famílias estrangeiras eram encaminhadas para um mesmo destino: a Hospedaria de Imigrantes do Brás. Construída em 1886, a instituição funcionou entre 1887 e 1978 como principal centro de recepção de migrantes e imigrantes que chegavam ao estado de São Paulo. Estima-se que cerca de 2,5 milhões de pessoas, de mais de 70 nacionalidades, tenham passado por ali. O local representava o primeiro contato com o Brasil e o início de uma nova vida, muitas vezes, marcada por expectativas, incertezas e negociações de trabalho que definiriam o destino de famílias inteiras.

Os imigrantes permaneciam ali por cerca de três a cinco dias, período em que recebiam alimentação, atendimento médico e eram cadastrados. O cotidiano seguia uma rotina organizada: banho, inspeção sanitária, registro, vacinação, distribuição de refeições e encaminhamento ao trabalho.

A criação da Hospedaria esteve diretamente ligada ao projeto econômico paulista. Com o enfraquecimento do sistema escravista, a elite cafeeira buscava substituir a mão de obra cativa por trabalhadores livres, principalmente europeus. A imigração foi estimulada por políticas públicas e por entidades privadas, como a Sociedade Promotora de Imigração, financiadas com recursos governamentais. Ao chegar, os recém desembarcados eram encaminhados para lavouras do interior paulista, onde se concentrava a produção cafeeira. Nesse sentido, a Hospedaria funcionava como um ponto estratégico de triagem e distribuição de trabalhadores.

Figura 1. [QUINTA etapa: imigrante no dormitório masculino]. São Paulo-SP, [19–?]. Ampliação, pb. Ref: Acervo APESP, Núcleo de Acervo Iconográfico, Fundo Secretaria da Promoção Social (SEPROS), Documento MI_ICO_AMP_046_002_024_001

O encerramento das atividades da Hospedaria dos Imigrantes, em 1978, desencadeou um amplo debate público sobre a destinação do espaço, uma vez que se reconhecia, de forma quase consensual, seu valor simbólico e histórico como locus fundamental da memória da imigração em São Paulo. Nesse contexto, em 1986, foi criado um centro de memória voltado à preservação e à interpretação dessa experiência migratória. Posteriormente, entre 1991 e 1992, a instituição foi formalmente constituída como Memorial da Imigração.

Em 2011, o espaço passou a ser denominado Museu da Imigração e iniciou um processo abrangente de reforma arquitetônica e museológica. Esse período coincidiu com a finalização do novo edifício do Arquivo Público do Estado de São Paulo, localizado no bairro de Santana, na Rua Voluntários da Pátria. Trata-se de uma edificação moderna, projetada especificamente para a guarda técnica de documentos, com grande capacidade de armazenamento vertical, cuja conclusão ocorreu no início de 2012.

A viabilização da reforma do Museu da Imigração exigiu o deslocamento do acervo documental que até então se encontrava no edifício da antiga Hospedaria. Esses documentos, em sua maioria provenientes da Secretaria da Agricultura, constituem recolhimentos regulares do Arquivo Público do Estado, integrando, portanto, seu fundo documental. Optou-se, institucionalmente, por garantir a preservação física adequada desses materiais no Arquivo Público, ao mesmo tempo em que se ampliava o acesso por meio da disponibilização de versões digitais.

Desse modo, os registros e evidências documentais produzidos no período compreendido entre 1886 e 1978 foram incorporados ao Arquivo Público do Estado de São Paulo, enquanto o edifício da antiga Hospedaria manteve sua estrutura física e passou a abrigar funções museológicas e expositivas. Esse processo evidencia a articulação entre as duas instituições na preservação, salvaguarda e difusão da memória da imigração, conciliando critérios técnicos de conservação documental com estratégias de comunicação e acesso público ao patrimônio histórico.

Além do Museu da Imigração, o complexo da antiga Hospedaria dos Imigrantes integra também o Arsenal da Esperança, associação de caráter socioassistencial que oferece atendimento diário a aproximadamente 1.200 homens em situação de rua. Essa coexistência evidencia a ressignificação contemporânea do edifício, que articula funções culturais, patrimoniais e sociais, reafirmando seu papel histórico como espaço de acolhimento e integração, agora voltado tanto à preservação da memória coletiva quanto à resposta a demandas sociais urgentes no contexto urbano paulistano.

Documentos que contam histórias

Grande parte do que se sabe sobre a imigração paulista pode ser reconstituída por meio dos documentos preservados no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Entre eles estão:

  • Listas de bordo, com dados pessoais dos passageiros;
  • Livros de matrícula, registrando procedência e destino;
  • Cartas de chamada, em que imigrantes solicitavam a vinda de parentes;
  • Relatórios governamentais e requerimentos de restituição de passagens;
  • Fotografias, mapas e plantas arquitetônicas do complexo.

A documentação não era apenas burocrática, ela servia como um instrumento de controle estatal. Como o estado de São Paulo financiava a imigração (passagens, alimentação e estadia), era necessário um registro detalhado para garantir que o investimento fosse pago.

Conforme explica o diretor do Arquivo, Thiago Nicodemo:

Além disso, esses documentos hoje ultrapassam sua função administrativa original e se tornam fontes indispensáveis para pesquisadores, descendentes de imigrantes e para o público em geral, permitindo a reconstrução de trajetórias individuais e coletivas que ajudam a compreender os processos de formação social, econômica e cultural de São Paulo. Ao preservar e disponibilizar esse acervo, o Arquivo Público do Estado de São Paulo não apenas assegura a transparência da ação estatal ao longo do tempo, mas também promove o direito à memória, transformando registros de controle e gestão em instrumentos de reconhecimento, identidade e pertencimento para gerações futuras.

Confira, a seguir, a documentação completa usada no episódio:

  • [ENTRADA do edifício principal]. São Paulo-SP, [19--?]. Ampliação, pb. Ref: Acervo APESP, Núcleo de Acervo Iconográfico, Fundo Secretaria da Promoção Social (SEPROS), Documento MI_ICO_AMP_002_004_032_001

  • O IMMIGRANTE, a. I, n. 1, jan. 1908. Ref: Acervo APESP, Núcleo de Biblioteca e Hemeroteca, Coleção Hemeroteca, Série Revistas, Subsérie O Immigrante

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