ARQUIVO SP: Ep 02. Ferrovias Paulistas

ARQUIVO SP: Ep 02. Ferrovias Paulistas
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O Desenvolvimento da Malha Ferroviária Paulista

Originalmente, a ideia para o projeto de Documentário Arquivo SP, uma parceria do Arquivo Público do Estado com a TV Cultura e Univesp TV, nasceu de um processo de descoberta iniciado por uma visita exploratória ao complexo ferroviário em Jundiaí da antiga FEPASA – Companhia Paulista de Estradas de Ferro, tema do segundo episódio do documentário. Essa investigação documental tornou-se a inspiração central para a criação da série. No início, não se tinha a exata dimensão da função histórica daquele espaço, embora fosse possível identificar que ali estivera concentrada uma parcela significativa da documentação das ferrovias paulistas. Nesse sentido, a visita despertou a necessidade de organizar as informações dispersas, funcionando como um esforço para montar um “quebra-cabeça” histórico que explicasse a trajetória e a importância daquele local.

Conforme comenta Thiago Nicodemo, diretor do Arquivo:

Ao longo de décadas, as ferrovias paulistas desempenharam papel crucial no desenvolvimento socioeconômico, facilitando o escoamento de produtos agrícolas, especialmente o café, ligando o interior ao porto de Santos e impulsionando a urbanização e a industrialização. Obras de engenharia arrojadas, desbravamento de terrenos acidentados e trabalho intenso de milhares de operários marcam a construção dessas rotas férreas que se espalharam pelo território, ligando cidades, impulsionando mercados e encurtando distâncias.

O desenvolvimento ferroviário em São Paulo teve início ainda na década de 1830, quando os governos imperial e provincial aprovaram medidas legislativas destinadas a estimular a construção de ferrovias capazes de interligar os principais centros do país. No contexto paulista, a proposta de implantação de uma estrada de ferro ligando o planalto ao Porto de Santos respondia diretamente aos interesses econômicos dos grandes exportadores rurais, que buscavam reduzir os custos de transporte dos produtos agrícolas do interior até o litoral.

O projeto foi retomado em 1856, quando Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, obteve a concessão imperial para a construção de uma linha férrea entre Jundiaí e Santos, empreendimento realizado em parceria com a companhia inglesa São Paulo Railway. A iniciativa foi favorecida por um novo conjunto de leis promulgadas entre 1852 e 1855, tanto no âmbito imperial quanto provincial, voltadas ao estímulo da expansão ferroviária em função das demandas econômicas geradas pelo crescimento da cafeicultura paulista.

Com a finalização da linha entre Santos e Jundiaí, os paulistas, beneficiados por fatores internos e externos e amparados pela legislação ferroviária provincial, passaram a se engajar de forma mais ativa na construção de novas ferrovias. O objetivo era substituir o antigo sistema de transporte baseado em tropas de mulas, incapaz de atender às crescentes exigências da economia cafeeira. Entre 1868 e 1872, foram criadas três companhias ferroviárias que se consolidariam, até meados do século XX, como as mais relevantes do estado, tanto no transporte de cargas quanto de passageiros: a Companhia Paulista de Estradas de Ferro (CPEF), a Estrada de Ferro Sorocabana (EFS) e a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro (CMEF).

Além do impacto econômico, também é importante ressaltar a dimensão social e urbana das ferrovias. A implantação das linhas férreas contribuiu para o surgimento e a consolidação de núcleos urbanos ao longo dos trilhos, redefinindo padrões de ocupação do território e influenciando fluxos migratórios, especialmente de trabalhadores nacionais e imigrantes. As estações ferroviárias tornaram-se polos de sociabilidade, comércio e administração, assumindo papel central na organização do espaço urbano.

No início do século XX e, de forma mais acentuada a partir da década de 1930, as companhias ferroviárias passaram a enfrentar sérias dificuldades financeiras. O declínio da economia cafeeira, principal fonte de receita dessas empresas, comprometeu sua capacidade de investimento, situação agravada nas décadas de 1940 e 1950 com a expansão do transporte rodoviário, que rompeu o quase monopólio ferroviário no transporte de cargas e passageiros.

A partir da década de 1960, sob influência do modelo federal de unificação das ferrovias controladas pela União, passou-se a discutir a fusão das ferrovias paulistas, processo que culminou na criação da Fepasa – Ferrovia Paulista S/A, em 1971. Posteriormente, em 1998, a empresa foi incorporada à Rede Ferroviária Federal S/A e, no mesmo ano, privatizada.

Após a privatização, a documentação produzida pela Fepasa foi destinada a diferentes instituições de guarda. O conjunto recolhido pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo é composto por documentos textuais e iconográficos — incluindo fotografias e registros audiovisuais — atualmente disponíveis para consulta pública. A parcela mais expressiva da produção documental da Fepasa, no entanto, encontra-se sob a custódia do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), alocadas no espaço Expressa, complexo da antiga Fepasa, em Jundiaí, o qual desempenha um papel central na preservação da identidade local, conectando o passado ferroviário às novas expressões culturais e sociais da cidade.

Figura 1. EMENDANDO o cabo nos Novos Planos Inclinados. [S. l.], [19–?]. Fotografia, pb. Ref: Acervo APESP, Núcleo de Acervo Iconográfico, Fundo Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA), Documento RFFSA_013a.

Somam-se a esse conjunto os acervos das companhias ferroviárias paulistas preservados nos fundos Hemeroteca (jornais e revistas), Secretaria dos Transportes, Secretaria da Segurança, Ferrovia Paulista S/A e Rede Ferroviária Federal S/A, igualmente sob a guarda do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Esses fundos reúnem documentação fundamental para a compreensão da trajetória das ferrovias e de seu papel na formação econômica, social e territorial do estado.

Nesse contexto, recuperar e difundir essa história constitui um convite à valorização da memória ferroviária paulista — um patrimônio que segue mobilizando debates sobre conservação, usos culturais e potencial turístico. As linhas férreas que, no passado, impulsionaram a economia cafeeira, representam hoje um elo simbólico com as gerações responsáveis pela construção do estado moderno.

O episódio, ao enfatizar a constituição e a preservação desses acervos documentais, ressalta o papel central dos arquivos históricos na compreensão dos processos de formação do estado de São Paulo. Ao articular passado e presente, a série propõe uma reflexão crítica tanto sobre o declínio do transporte ferroviário ao longo do século XX quanto sobre os desafios contemporâneos relacionados à salvaguarda desse patrimônio material e imaterial.

Documentos que contam histórias

O segundo episódio da série Arquivo Sp destaca diferentes tipos de registros que compõem o vasto acervo das ferrovias paulistas, com foco especial na transição administrativa e na preservação da memória operária e técnica. Dentre os materiais destacados estão:

  • Acervo Iconográfico: fotografias, fitas de vídeo e cartografia;
  • Documentação textual administrativa;
  • Registros pessoais e de carreira;
  • Documentação do Acervo do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes).

A importância histórica da documentação ferroviária paulista está na sua capacidade de reconstruir a trajetória do desenvolvimento de São Paulo através dos trilhos. Como testemunho do desenvolvimento econômico, esses registros comprovam como a infraestrutura ferroviária foi o motor que viabilizou o boom do café e, em um segundo momento, a sólida expansão industrial paulista ao longo do século XX.

Além do aspecto econômico, os arquivos demonstram como o traçado ferroviário ditou o ritmo de crescimento das cidades, impulsionou a migração rural-urbana e fomentou o surgimento de indústrias de abastecimento local instaladas estrategicamente ao redor das estações.

Confira, a seguir, a documentação completa usada no episódio:

  • [LOCOMOTIVA e funcionários da Companhia Mogiana]. [S. l.], [19--?]. Fotografia, pb. Ref: Acervo APESP, Núcleo de Acervo Iconográfico, Fundo Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA), Documento Piso Superior Museu
  • BRASIL, GOVERNO FEDERAL. [Decreto n. 524, de 26 de junho de 1890, que estabelece regras sobre a competência do governo federal para a concessão de estradas de ferro]. Rio de Janeiro-RJ, 26 jun. 1890. Ref: Acervo APESP, Fundo Secretaria dos Transportes (SETRANS), Caixa C9449

Verifique a seguir o episódio veiculado pela UNIVESP TV, do dia 03 de fevereiro de 2026:

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Ana Beatriz Rodrigues de Paula