ARQUIVO SP: Ep 03. Desinfectório Central
No terceiro episódio da série Arquivo SP revisitamos o antigo Desinfectório Central. Criado oficialmente em 1892 e inaugurado em 1893, ele integrava o recém-organizado Serviço Sanitário paulista, estruturado para enfrentar epidemias como varíola, febre amarela, cólera e tifo. Em um contexto de graves crises sanitárias que atingiram São Paulo no final do século XIX, o Desinfectótrio tornou-se uma peça estratégica da política de saúde pública republicana.
O Desinfectório Central: a engrenagem da saúde pública paulista
No final do século XIX, São Paulo vivia um paradoxo. Ao mesmo tempo em que enriquecia com o café e se projetava como símbolo da modernidade republicana, enfrentava sucessivas epidemias de varíola, febre amarela, cólera e tifo. Ruas mal saneadas, cortiços superlotados e crescimento urbano acelerado criavam o cenário ideal para a disseminação de doenças. Foi nesse contexto que surgiu uma das instituições mais emblemáticas da história da saúde pública paulista: o Desinfectório Central.
Localizado no bairro do Bom Retiro, região marcada pela presença de imigrantes e trabalho operário, e que se transformou com a chegada da São Paulo Railway em 1867, o Desinfectório foi construído em terreno que anteriormente abrigara a Hospedaria de Imigrantes e um hospital militar. Inaugurado em 1893, o edifício foi projetado de modo a separar rigorosamente objetos contaminados daqueles já desinfetados, além de privilegiar ventilação e iluminação naturais, em consonância com as concepções sanitárias vigentes.
Vinculado ao Serviço Geral de Desinfecção, o Desinfectório Central desempenhava múltiplas funções. Era responsável por descontaminar residências e prédios públicos, tratar roupas e objetos pessoais, isolar doentes contagiosos e encaminhá-los ao Hospital de Isolamento quando necessário. Também recolhia cadáveres vítimas de moléstias infecciosas e atuava no controle de pragas urbanas. Os números impressionam: somente em 1894, foram realizadas centenas de desinfecções domiciliares e processadas centenas de milhares de peças de roupa e objetos.
Mais do que uma estrutura técnica, o Desinfectório representava a face disciplinadora do Estado republicano. Em uma cidade profundamente desigual, as ações sanitárias incidiam com especial intensidade sobre os bairros populares e os cortiços, considerados focos de insalubridade e habitados, muitas vezes, por imigrantes. A política de desinfecção, portanto, não apenas combatia doenças, mas também expressava um projeto de ordenamento urbano e controle social.
O cotidiano no Desinfectório era frenético. Equipes paramentadas saíam em carroças, e mais tarde em veículos motorizados, para buscar doentes e recolher seus pertences. O coração tecnológico da época eram as autoclaves: fornos gigantescos que utilizavam vapor sob pressão para esterilizar roupas e objetos de focos infecciosos.

A virada do século trouxe a Revolução Bacteriológica. Com o avanço da microbiologia liderado por figuras como Emílio Ribas, Adolfo Lutz e Vital Brasil, o foco mudou dos “ares” para os agentes patogênicos. Nesse sentido, o Desinfectório também incorporava práticas da nascente bacteriologia, utilizando produtos químicos e técnicas inspiradas nos avanços científicos que redefiniam a compreensão das doenças. Assim, tornou-se um espaço onde conviviam duas visões de mundo: a que buscava “purificar” o ar e os ambientes e a que começava a identificar microrganismos como agentes causadores das enfermidades.
Ao longo do século XX, com a consolidação da bacteriologia e a modernização dos sistemas de saúde, as funções do Desinfectório perderam centralidade. A instituição encerrou suas atividades originais na década de 1960 e o edifício passou por diferentes reconfigurações administrativas. Em 1965, foi convertido em espaço cultural. Inicialmente pensado como museu dedicado ao sanitarista Emílio Ribas, o projeto ampliou-se ao longo dos anos, incorporando acervos relacionados à história da saúde pública paulista.
Inaugurado oficialmente em 1979, o Museu de Saúde Pública Emílio Ribas (MUSPER) passou por uma revitalização em 1985, ano em que o prédio foi tombado pelo Condephaat. Desde 2010, o espaço integra o Instituto Butantan, preservando a memória das políticas sanitárias que marcaram a formação do estado moderno em São Paulo. O local guarda desde cartazes educativos pintados à mão até o “pedojete”, a temida pistola de vacinação que marcou gerações nas campanhas contra a meningite. No geral, o acervo é composto por documentos da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo (SES) e documentação referente às primeiras organizações de saúde pública no Estado como, por exemplo, Inspetoria de Higiene, Serviço Sanitário, Divisão do Serviço de Interior, Departamento de Profilaxia da Lepra, entre outros.
Nesse contexto, o acervo do antigo Departamento Central de Hanseníase, hoje sob guarda do Museu Emílio Ribas, assume um papel importante como instrumento de direitos humanos e justiça social. A abordagem histórica da hanseníase em São Paulo foi marcada pelo estigma e pela política de isolamento compulsório, que atingiu seu ápice entre as décadas de 1930 e 1960. Baseado na crença equivocada de que a patologia era hereditária, o Estado implementou uma estrutura de segregação drástica, resultando na separação forçada de famílias e no encaminhamento de filhos de pacientes para instituições preventivas. Esse modelo sanitarista de exclusão não visava apenas o controle epidemiológico, mas também o distanciamento social daqueles considerados indesejados, gerando traumas profundos que perduraram mesmo após o surgimento de tratamentos eficazes e a flexibilização das normas de internação na década de 1980.
Sobre a preservação desses documentos, conforme observa Thiago Nicodemo, diretor do Arquivo,
É um ponto muito importante, porque você tem a possibilidade de reconhecimento e restituição do Estado sobre esse prejuízo causado para essas pessoas e para esses filhos e netos, ou eventualmente, alguém que ainda tenha sobrevivido de um lugar de internação compulsória.
Portanto, os prontuários e registros históricos preservados são documentos fundamentais para que sobreviventes e herdeiros possam comprovar os danos causados pelo Estado e pleitear reparações morais e financeiras. Além do valor jurídico, esses arquivos funcionam como um memorial de reconstrução de identidades, permitindo que famílias fragmentadas resgatem sua história e transformem o antigo silêncio institucional em um processo de restituição da dignidade e da memória coletiva.
Documentos que contam histórias
O terceiro episódio da série Arquivo SP destaca diferentes tipos de registros que compõem o vasto acervo da saúde pública paulista e que podem ser encontrados no Museu de Saúde Pública Emílio Ribas e no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Dentre os materiais destacados estão:
- Prontuários Médicos: Especialmente os do antigo Departamento Central de Hanseníase.
- Documentos do Serviço Sanitário: Relatórios, ofícios, memorandos e livros de registros que detalham a estruturação da saúde pública em São Paulo desde o final do século XIX.
- Coleções Pessoais: Documentos e objetos que pertenceram ao próprio Emílio Ribas.
- Material Gráfico: Cartazes, folhetos e cartilhas informativas.
- Campanhas de Vacinação: Documentação e itens de campanhas históricas, incluindo o boneco original do Zé Gotinha e materiais da campanha contra a meningite.
- Equipamentos Médicos e Científicos: Microscópios antigos e instrumentos de laboratório.
- Tecnologia de Desinfecção: As autoclaves (fornos de esterilização) que faziam parte da função original do prédio.
- Instrumentos de Vacinação: O destaque para o “pedojete“, a pistola de vacinação em massa usada na década de 1970.
- Fotografias e Plantas: Registros visuais da evolução urbana de São Paulo e da arquitetura do prédio.
- Veículos Históricos: Os carros de desinfecção, incluindo um modelo raro que possuía uma estufa acoplada, evoluindo da tração animal para a motorizada.
Hoje, ao revisitarmos sua trajetória, o Desinfectório Central revela muito mais do que técnicas de combate às epidemias. Ele nos permite compreender como ciência, política e urbanização se entrelaçaram na construção de uma São Paulo moderna e como o enfrentamento das doenças sempre esteve ligado às formas de organizar e imaginar a própria cidade. Preservar esse acervo não é apenas um exercício de nostalgia. Em um mundo pós-pandemia de COVID-19, entender como São Paulo venceu as crises sanitárias do passado é fundamental para desenhar as políticas públicas do futuro.
Confira, a seguir, a documentação completa usada no episódio:
Verifique a seguir o episódio veiculado pela UNIVESP TV, do dia 09 de fevereiro de 2026:






























