ARQUIVO SP: série de episódios sobre a História de São Paulo

ARQUIVO SP: série de episódios sobre a História de São Paulo
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O Arquivo Público do Estado idealizou a produção de uma série de Documentários, em parceira com a Univesp TV e exibida semanalmente pela TV Cultura, sobre as Instituições que mudaram a história do Estado de São Paulo, na esteira do rápido desenvolvimento experimentado com os processos de Industrialização e explosão populacional, num contexto de abolição da escravatura, substituição dessa mão de obra por braços estrangeiros e modernização nas diversas frentes, como as da Ciência, Educação, da Saúde, da Infraestrutura de Transportes, Alimentação, Moradia e Gestão Pública.

Para o Diretor do Arquivo, Thiago Nicodemo, responsável pela concepção e argumento original da série:


Neste contexto, foi construída a imponente Hospedaria de Imigrantes do Brás, dotada de serviço médico próprio. Devido ao surgimento de indústrias têxteis e alimentícias, porém, parte dos recém-chegados acabou se estabelecendo na capital, que também recebia muitos negros libertos marginalizados, levando à proliferação de cortiços e bairros operários em áreas periféricas, especialmente junto às várzeas dos rios e às margens das ferrovias.

Ademais, estava latente a construção de uma “consciência republicana”. O estado de São Paulo adquiria crescente protagonismo a nível nacional e desejava tanto romper quaisquer vínculos com seu passado imperial, quanto adentrar na ordem internacional vigente. Assim, era de fundamental importância utilizar o dinheiro oriundo do café para modernizar a capital e viabilizar a afirmação de determinado repertório simbólico. Isso passava, entre várias coisas, pela garantia de condições sanitárias mínimas em um espaço urbano já altamente segregado. Enquanto os bairros da elite ofereciam excelentes condições de vida, outros tantos representavam focos de miséria e doença. Ao inspecionarem os cortiços do bairro de Santa Ifigênia, em 1894, fiscais públicos classificaram as habitações precárias, carentes de iluminação, ventilação e fossas sépticas, como potenciais epicentros de doenças transmissíveis, acusando os pobres de ignorarem as condições básicas de higiene. Cidade e indivíduo constituíam, portanto, agentes causadores de enfermidades, cabendo ao Estado conformá-los.

Os relatórios da Secretaria do Interior evidenciam o caos sanitário que viviam os paulistas na virada do século XIX. Surtos de cólera, febre amarela, tifo e varíola grassavam pelo estado, matando indiscriminadamente. A cidade de Santos, onde desembarcavam os imigrantes, apresentava tamanha insalubridade ao ponto de se aventar a criação de um novo porto, opção logo descartada devido à magnitude da empreitada. Deste modo, era preciso realizar obras de saneamento, construir hospitais, fundar institutos de pesquisa e policiar os hábitos da população, além de impor ordem ao crescimento urbano acelerado.

O projeto do Documentário foi concebido para um público diversificado, abrangente e aborda a estruturação experimentada no século XIX, buscando representar as funções do Estado e suas diversas atribuições. O Arquivo Público desempenha um papel central como fio condutor, na arquitetura dos roteiros e nas pesquisas arquivísticas mobilizadas na instituição, a partir de seus acervos disponíveis. Serão exibidos treze episódios que se tornarão programas de televisão, dos quais seis já foram gravados e estão em processo de edição para serem exibidos na TV aberta e pública, no primeiro semestre de 2026.

Conforme explica Thiago Nicodemo:

Este projeto tem o potencial de gerar uma exposição itinerante, estimulando a pesquisa sobre marcos patrimoniais locais, além de subsidiar a produção de publicações acadêmicas e parcerias com espaços expositivos. Adicionalmente, o projeto prevê a criação de conteúdos em podcasts, produzidos em parceria com as instituições envolvidas, promovendo, inclusive a possibilidade da criação de cursos de Extensão Universitária, na Escola do Arquivo. Dessa forma, o projeto não apenas amplia o acesso à informação e à cultura, mas também fortalece a representatividade e a valorização do patrimônio documental, histórico e cultural paulista.

O desenvolvimento do trabalho contou com um corpo técnico multidisciplinar do Arquivo Público do Estado, envolvendo pesquisadores e assistentes dedicados à recuperação da memória institucional. A equipe foi composta por profissionais como Guilherme Vieira, Josiane Oliveira, Diego de Souza Morais, Isaura Maria Ribeiro Bonavita, Marcelo Quintanilla, Ana Beatriz Rodrigues, João Pedro Formenton Facioni, Márcio Amêndola de Oliveira e Matheus Garcez Froelich Ferreira.

A viabilização do projeto também teve o suporte institucional de figuras-chave, como Fábio Chateaubriand (então diretor da TV Cultura), e uma secretaria executiva composta por Eduardo Beretta, Marcelo de Oliveira Costa, Gabriella Rodrigues e Juliana Cabral. Esta colaboração permitiu que instituições frequentemente sub-representadas na historiografia tradicional fossem objeto de uma análise profunda, transformando dados brutos de arquivo em narrativas históricas estruturadas e processadas.

Do ponto de vista da organização conceitual do Projeto, o Arquivo aparece como articulador da narrativa, na medida em que o acervo documental salvaguardado pela instituição reflete os arranjos políticos tecidos durante a criação das instituições retratadas. Esta análise das trajetórias institucionais revela as funções de Estado desempenhadas por órgãos como o serviço de polícia, as ferrovias, o serviço de imigração e o controle epidêmico. A investigação aponta que a origem dessas estruturas remete ao período de transição entre a crise do Império e os anos iniciais da República.

A promulgação da Constituição de 1891 é identificada como o marco que conferiu ao estado de São Paulo maior autonomia para a implementação de políticas públicas descentralizadas em relação ao governo federal. Todo o processo decisório — desde o ato de criação das instituições até o planejamento arquitetônico de suas sedes — encontra-se formalmente documentado em acervos históricos, originalmente custodiados pelas Secretarias de Governo e do Interior. Tais instrumentos legais, nos permitem entender como o Governo Estadual executou tais medidas, que deram origem a instituições seculares, que retrataremos nesta série de Documentários, cujos Episódios descrevemos brevemente a seguir.

Figura 1. [IMIGRANTES posando em frente ao edifício principal].
São Paulo-SP, 1938. Ampliação, pb. Ref: Acervo APESP, Núcleo de Acervo Iconográfico, Fundo Secretaria da Promoção Social (SEPROS), Documento MI_ICO_AMP_060_006_004_001.

Neste episódio, o local emblemático escolhido para tratar do tema foi a Hospedaria de Imigrantes em São Paulo que surgiu na década de 1830, quando o governo imperial incentivou a imigração europeia para colonizar áreas despovoadas. Em 1886, a Hospedaria de Imigrantes do Brás foi construída para substituir o antigo alojamento do Bom Retiro e direcionar os trabalhadores estrangeiros para as grandes lavouras comerciais, especialmente de café, no interior de São Paulo.

O surgimento de serviços de hospedagem para trabalhadores estrangeiros em São Paulo remonta à década de 1830, quando o governo imperial adotou políticas de incentivo à vinda de imigrantes europeus ao Brasil para a colonização de territórios despovoados. A partir da década de 1880, tornou-se necessária a construção de um alojamento cuja capacidade de atendimento correspondesse às crescentes demandas de recepção impulsionadas pela intensificação do fluxo de imigrantes para a província paulista. É nesse contexto que em 1886, por determinação do governo de Antonio de Queiroz Telles, foi construída a Hospedaria de Imigrantes do Brás para substituir o modesto alojamento do Bom Retiro e direcionar a mão de obra estrangeira às grandes lavouras comerciais, principalmente a cafeeira, localizadas no interior da província de São Paulo

No Arquivo Público, o acervo relacionado, que subsidia a narrativa, inclui documentos de várias Secretarias de Estado, como correspondências de imigrantes, registros de estrangeiros, listas de passageiros, livros de matrícula, requerimentos de colonos, coleções iconográficas e cartográficas, abrangendo períodos desde o século XIX até o século XX.

Figura 2. [IMIGRANTES desembarcando na estação da Hospedaria de Imigrantes]. São Paulo-SP, [19–?]. Ampliação, pb. Ref: Acervo APESP, Núcleo de Acervo Iconográfico, Fundo Secretaria da Promoção Social (SEPROS).

Neste episódio, foi tratado do desenvolvimento ferroviário em São Paulo que remonta aos anos 1830, quando medidas legislativas foram promulgadas pelos governos imperial e provincial com o intuito de incentivar a construção de ferrovias que conectassem os principais centros do país. Em São Paulo, o projeto de construção de uma estrada de ferro que ligasse o planalto paulista ao Porto de Santos procurava responder aos anseios econômicos dos grandes exportadores rurais de baratear os custos de transporte de produtos agrícolas do interior ao litoral.

O projeto fracassou à época, sendo retomado apenas em 1856, quando Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, ganhou a concessão imperial para a construção de uma linha férrea que vinculasse as cidades de Jundiaí e Santos, executada em parceria com a companhia inglesa São Paulo Railway. O empreendimento de Mauá e seus sócios ingleses foi beneficiado pela promulgação, entre 1852 e 1855, de outro conjunto de medidas legislativas imperiais e provinciais de estímulo à construção ferroviária, que remetia às necessidades econômicas da crescente produção cafeeira paulista. Ao contrário das leis da década de 1830, as medidas legislativas dos anos 1850 ofereciam incentivos “generosos”, como o privilégio de zona e uma garantia anual de 5% de juros sobre o capital investido. Iniciada em 1860, a obra seria entregue sete anos depois, em 1867.

Após a conclusão da linha entre Santos e Jundiaí, os paulistas, favorecidos por uma série de fatores internos e externos e amparados pela legislação ferroviária provincial, passaram a se envolver ativamente na construção de ferrovias, buscando substituir o antigo sistema de transporte por tropas de mulas, incapaz de atender às crescentes demandas da economia cafeeira. Entre 1868 e 1872, surgiram as três companhias de estradas de ferro que, até meados do século XX, figurariam como as mais importantes de São Paulo, destacando-se tanto no transporte de carga quanto de passageiros: a Companhia Paulista de Estradas de Ferro (CPEF), a Estrada de Ferro Sorocabana (EFS) e a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro (CMEF). O crescimento da malha ferroviária viabilizou a expansão da fronteira agrícola cafeeira para outras áreas do interior paulista, além de intensificar seu povoamento com o transporte de imigrantes europeus às fazendas de café e núcleos coloniais. Em pouco tempo, grande parte do estado de São Paulo estava articulada às ferrovias construídas pelas companhias supracitadas. Paralelamente ao estabelecimento das linhas tronco, foram implementados ainda inúmeros ramais “cata-café”, pequenos trechos de estradas de ferro cujo principal objetivo era atender fazendas de grandes cafeicultores.

No Arquivo Público, o acervo relacionado, que subsidia a narrativa, inclui documentos de várias Secretarias, como Assistência Social a migrantes e imigrantes, Transporte Ferroviário, Segurança Pública e registros de Companhias Ferroviárias, abrangendo períodos desde o século XIX até o século XX.

Figura 3. [EDIFÍCIO do Desinfectório Central]. São Paulo-SP, 1902. Fotografia,
Ref: Acervo Instituto Butantan, Fundo Museu de Saúde Pública Emílio Ribas (MUSPER), Documento IMG_4366.

Neste episódio, o local emblemático escolhido para tratar do tema foi o Museu de Saúde Pública Emílio Ribas, antigo Desinfectório Central no bairro do Bom Retiro. O Desinfectório Central, localizado no bairro do Bom Retiro era um reduto de chácaras da elite paulistana. A região começou a mudar com a conclusão da São Paulo Railway, em 1867, que alavancou a industrialização do entorno e atraiu mão de obra imigrante.

No ano de 1882, o governo estadual adquiriu a propriedade de Manfredo e Elvira Meyer, onde funcionaram a primeira Hospedaria de Imigrantes da capital e o Hospital Militar da Força Pública, até o engenheiro sanitário Teodoro Sampaio escolher o terreno para abrigar o Desinfectório Central. Os estrangeiros J. E. Damergue e Paul Rouch, contratados pela Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, supervisionaram a construção do edifício, entregue em 1893. Cabia ao Desinfectório Central descontaminar objetos pessoais, residências e edifícios públicos; promover a quarentena de doentes contagiosos e os transportar ao Hospital de Isolamento caso necessário; recolher cadáveres acometidos por moléstias infecciosas e os enterrar adequadamente; e controlar a população urbana de moscas e roedores. O Desinfectório Central funcionou até a década de 1960, mas as desinfecções perderam importância conforme a teoria microbiana se consolidou e novos avanços científicos ocorreram. Ao longo do século XX, o local passou por várias mudanças organizacionais, finalmente convertendo-se em aparelho cultural no ano de 1965. A ideia original previa a criação de um museu dedicado ao médico sanitarista Emílio Ribas, cuja sede seria o Hospital de Isolamento homônimo, tarefa incumbida a Secretaria da Saúde (SES).

No Arquivo Público, o acervo relacionado, que subsidia a narrativa, inclui documentos variados do Serviço Sanitário, ofícios recebidos, e relatórios de desinfecções do final do século XIX.

Figura 4. [Instituo Butantã]. São Paulo-SP. Fotografia, pb.
Ref: Acervo APESP, Núcleo de Acervo Iconográfico, Fundo Secretaria de Governo, Secretaria Especial de Comunicação, Fotografias (negativos), BR_SPAPESP_GSPSEGOV_GSPSECOM_S004_M2568_D0078_ICO_NEG

Neste episódio, o local emblemático escolhido para tratar do tema foi o Instituto Butantan. Em outubro de 1899, um surto de peste bubônica eclodiu no Porto de Santos. Frente à dificuldade de importar soro antipestoso, o governo estadual decidiu instalar um laboratório capaz de produzir a substância localmente. Este foi criado em dezembro de 1899, vinculado ao Instituto Bacteriológico, órgão do Serviço Sanitário que funcionava desde 1892.

O novo laboratório soroterápico adotava os preceitos da microbiologia, campo de estudo surgido no último quartel do século XIX graças ao trabalho de Louis Pasteur, Robert Koch e outros cientistas importantes, responsáveis por identificar os micróbios como agentes etiológicos de várias doenças historicamente atribuídas aos miasmas. Para abrigar o laboratório recém-criado, Emílio Ribas (diretor do Serviço Sanitário) e Adolfo Lutz (diretor do Instituto Bacteriológico) escolheram a Fazenda Butantan, uma área de 400 hectares isolada da cidade pelo rio Pinheiros, fronteira natural entre as zonas urbana e rural de São Paulo. No ano de 1901, pelo Decreto n. 878-A, o laboratório foi retirado do Instituto Bacteriológico e transformado em Instituto Soroterápico de Butantan (ou apenas Instituto Butantan).

O sanitarista Vital Brazil, à frente do Instituto Soroterápico entre 1901 e 1918, foi o responsável por estabelecer o antiofidismo como prioridade da instituição, baseado na sua experiência anterior de médico em zonas rurais. Em 1925, a reforma do Serviço Sanitário instituída pelo Decreto n. 3.876 unificou os Institutos Bacteriológico, Soroterápico e Vacinogênico, criando oficialmente o Instituto Butantan.

No Arquivo Público, o acervo relacionado, que subsidia a narrativa, inclui fotografias e documentos cartográficos.

Figura 5. [Instítuto Biológico – Pesquisas sobre a ferrugem cafeeira] São Paulo-SP, 1972. Créditos: Avelino Ginjo (Sec. Gov./SP). Fundo Secretaria de Governo, Secretaria Especial de Comunicação, Série Fotografias (negativos) BR_APESP_SEGOV_ICO_NEG_3851_14

Neste episódio, o local emblemático escolhido para tratar do tema foi o Instituto Biológico. Em 1924, o secretário da Agricultura, Comércio e Obras Públicas do Estado de São Paulo, Gabriel Ribeiro dos Santos, foi informado por um fazendeiro de Campinas de que sua produção e outras na região, estavam sendo atacadas por uma praga desconhecida.

À época, por influência de ideias positivistas, consolidou-se na política paulista o entendimento de que, para garantir a expansão da lavoura, a recuperação do solo e a diversificação da produção rural, era necessário conferir à administração pública, a partir da incorporação de preceitos da ciência agronômica, o papel de indutor do desenvolvimento da economia agropecuária através do fortalecimento, sobretudo, da estrutura técnica destinada ao apoio das atividades agrícolas e pecuárias de São Paulo.

O Instituto Biológico foi criado em 26 de dezembro de 1927, sob a égide da Secretaria da Agricultura, através da lei estadual nº 2.243, promulgada pelo então governador paulista Júlio Prestes. A fundação da referida instituição fez parte de um esforço mais amplo de reformulação da estrutura administrativa e da legislação agrícola de São Paulo promovido pelo poder público paulista a partir, principalmente, da virada do século XIX ao século XX, com o advento do regime republicano.

A inauguração do Biológico esteve particularmente associada ao reconhecimento, por parte dos representantes do estado paulista, da necessidade do seu estabelecimento em caráter permanente, após a bem-sucedida campanha de combate à praga da broca do café, organizada pela Comissão de Estudo e Debelação da Praga.

No Arquivo Público, o acervo relacionado, que subsidia a narrativa, inclui fotografias e documentos cartográficos.

Figura 6. [FACHADA da escola de Piracicaba]
Acervo APESP, Núcleo de Acervo Iconográfico

Neste episódio, o local emblemático escolhido para tratar do tema foi a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – ESALQ. Luiz Vicente de Souza Queiroz, nascido em São Paulo, no ano de 1849, ainda criança, com oito anos de idade, foi enviado para estudar na França, onde viveu até a Comuna de Paris (1871), evento que o levou a buscar refúgio na Suíça. Durante a estadia em território francês, ele conheceu o sistema tripartite de ensino agrícola implantado a partir de 1848, ficando bastante admirado. Também neste período, graduou-se em Agronomia, segundo relatos pela Escola de Grignon. No ano de 1873, voltou ao Brasil e herdou de seu pai a fazenda Engenho d’Água, em Piracicaba (então Vila de Constituição).

Apesar de filiado ao Partido Republicano Paulista (PRP), Luiz de Queiroz era adepto de tendências minoritárias, como a abolição imediata, enfrentando a oposição de lideranças regionais importantes, sobretudo Prudente de Moraes (defensor da abolição gradual). No ano de 1891, Luiz de Queiroz adquiriu a Fazenda São João da Montanha, propriedade de 317 hectares localizada em Piracicaba, com a finalidade de instalar ali uma escola agrícola.

A despeito da resistência dos conservadores piracicabanos, incrédulos quanto à necessidade de uma escola para ensinar a cultivar batatas, as obras logo se iniciaram. Todavia, o alto custo dos materiais, em grande parte importados, devorou rapidamente o patrimônio de Queiroz, obstruindo a construção. Frente à impossibilidade de bancar o empreendimento sozinho, ele decidiu requisitar subvenção governamental, mencionando a Constituição Federal, que deixava espaço a iniciativa privada em temática de ensino secundário; e a Constituição Estadual, que autorizava o patrocínio de iniciativas educacionais, ambas de 1891. Até 1934, a instituição fez parte da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo quando, passou a integrar a Universidade de São Paulo, como uma de suas unidades fundadoras.

No Arquivo Público, o acervo relacionado, que subsidia a narrativa, inclui documentos cartográficos e relatórios técnicos e administrativos sobre a organização e funcionamento da escola.

Figura 7. [Ofício do Secretário do Interior endereçado ao Diretor do Museu Paulista, Affonso Taunay, em 1929]
Fundo BR SPAPESP SEINT – Secretaria do Interior do Estado de São Paulo, Grupo 9G7 – Museu Paulista e Biblioteca do Estado.

Neste episódio, o local emblemático escolhido para tratar do tema foi o Museu do Ipiranga (Museu Paulista da USP). Entre as instituições culturais que respondiam à Secretaria do Interior do Estado de São Paulo estavam o Museu Paulista e a Biblioteca Pública do Estado. O Museu Paulista foi criado em 1894 e inaugurado próximo ao sítio histórico da proclamação da Independência. A princípio ele foi um espaço dedicado ao estudo das ciências naturais, contudo, a partir de 1917, iniciou-se sua transfiguração em um museu predominantemente histórico. Em 1922, durante as preparações para a comemoração do centenário da Independência do Brasil, o Museu, sob o comando do historiador Affonso de Taunay, adquiriu novos acervos, reformou a sua decoração interna e deu destaque aos vultos históricos paulistas

Figura 8. [Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo]
Fundo BR SPAPESP SSP – Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo.
Figura 9. [Estudantes em sala de aula]
Álbum de fotografias da Escola Normal e Anexa (1908),
Fundo BR SPAPESP SEINT – Secretaria do Interior do Estado de São Paulo, Grupo 9G3 – Instrução pública, Álbum de fotografias da Escola Normal e Anexas (1908), Livros: ICO_ENA.

Para este episódio, o local emblemático escolhido para tratar do tema será a Escola Normal Caetano de Campos. A Escola normal e Jardim de Infância, atual Caetano de Campos, foi construída para abrigar a Primeira Escola Normal da Capital, que ficou conhecida como Escola Normal Caetano de Campos em uma homenagem ao médico e professor Antônio Caetano de Campos. É considerada um dos marcos do processo de renovação do ensino no Brasil, de uma época em que grandes investimentos foram direcionados para o setor educacional do Estado.

Seu projeto, iniciado pelo Superintendente de Obras Públicas, Antônio Francisco de Paula Souza, foi desenvolvido pelos arquitetos Francisco de Paula Ramos de Azevedo e Domiziano Rossi, ambos do Escritório Técnico F. P. Ramos de Azevedo & Cia, e seguiu um estilo arquitetônico neoclássico. As aulas do Curso Normal foram transferidas para o edifício logo após a sua inauguração em 2 de agosto de 1894, juntamente com a Escola Modelo.

Figura 10. [Ofício do Secretário da Educação e da Saúde Pública para o Diretor da Pinacoteca, Paulo Leão, em 1936] Fundo BR SPAPESP SEDUC – Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, Subfundo 10G12 – Pinacoteca do Estado, Inventários da Pinacoteca do Estado (1936-1939).

Para este episódio, o local emblemático escolhido para tratar do tema será o Liceu de Artes e Ofícios, representado pela Pinacoteca do Estado. O edifício da atual Pinacoteca do Estado foi projetado para sediar o Liceu de Artes e Ofícios, atendendo a demanda de uma cidade em pleno progresso material que se reconstruía com alvenaria de tijolos em lugar da taipa existente, e por isso demandava mais profissionais habilitados às novas técnicas construtivas que seguiam os padrões europeus.

A partir de 1890, assume a direção do Liceu o arquiteto Francisco Paula Ramos de Azevedo, responsável por uma nova reforma curricular e administrativa da escola que a faria prosperar de modo inédito. Ramos de Azevedo também foi um dos fundadores da Escola Politécnica da futura Universidade de São Paulo e trouxe da Bélgica um espírito empreendedor que ia ao encontro dos interesses do Conselho Superior. Neste período, passaram pelo Liceu nomes como Victor Brecheret; Alberto Santos Dumont; Adoniran Barbosa. O Liceu se torna o principal divulgador e realizador de obras em estilo Art Nouveau da cidade.

Com projeto do escritório de Ramos de Azevedo e desenho de Domiciano Rossi, tem início a construção de um novo edifício para o Liceu de Artes e Ofícios, na Av. Tiradentes, o terreno, junto ao Jardim da Luz, foi doado pelo governo do Estado, em 1897, ano em que se iniciou a construção do edifício, inicialmente destinado a abrigar o Liceu de Artes e Ofícios. Em 1905, foi inaugurado como Ginásio do Estado e Pinacoteca, sob a direção do arquiteto Ramos de Azevedo, autor do projeto do edifício. Construído em alvenaria de tijolos, em estilo neoclássico, observa-se ainda hoje que as fachadas do edifício e a laje de forro sobre a entrada não foram concluídas, faltando o reboco. Os pisos são revestidos de mármore e de lajotas cerâmicas, as portas em madeira trabalhada e a cobertura em telhas francesas. Atualmente, ocupada pela Pinacoteca do Estado, o edifício foi restaurado e sofreu fortes intervenções exigidas pelo uso.

Figura 11. Fachada da Bolsa de Santos.
Tombamento Bolsa Oficial de Café, 22 set. 1981, p. 134.

Para este episódio, o local emblemático escolhido para tratar do tema será a Bolsa Oficial de Café de Santos foi criada no início do século XX como instrumento de organização e regulação do mercado cafeeiro brasileiro, em um contexto de expansão da cafeicultura paulista e de centralidade do café na economia nacional. Instituída pela Lei nº 1.416, de 1914, e instalada em 1917, a Bolsa teve papel fundamental na institucionalização das práticas comerciais, no controle das operações e na política de valorização do café, articulando produtores, comissários, exportadores e o sistema financeiro internacional.

Sua sede própria, inaugurada em 1922 como parte das comemorações do Centenário da Independência, tornou-se um marco arquitetônico do ecletismo e um símbolo do poder econômico do café, destacando-se pelas pinturas históricas de Benedito Calixto. A Bolsa funcionou de forma intensa até a crise de 1929, quando suas atividades entraram em declínio. Em 1937, foi fechada por decreto, em razão da crise do comércio cafeeiro. Posteriormente reaberta, teve sua denominação alterada para Bolsa Oficial de Café e Mercadorias, buscando ampliar suas funções, embora sem recuperar o protagonismo do período anterior.

Figura 12. Edificio do Palácio Campos Eliseos
1959. Fundo Secretaria do Governo. BR_APESP_SEGOV_ICO_NEG_0018

Para este episódio, o local emblemático escolhido para tratar do tema será o Palácio dos Bandeirantes e Palácio dos Campos Elíseos. A partir da trajetória dos governadores do Estado de São Paulo, entendidos como personagens centrais da própria formação do Estado brasileiro moderno neste episódio serão apresentadas as principais sedes de governo paulista. Desde a Primeira República, quando dirigentes oriundos das elites cafeeiras e do Partido Republicano Paulista afirmaram a autonomia estadual e impulsionaram a modernização econômica, até as transformações institucionais do século XXI, o governo paulista espelha, de forma privilegiada, os grandes ciclos políticos, econômicos e sociais do país.

A ruptura provocada pela Revolução de 1930 redefiniu esse percurso, encerrando o modelo oligárquico e instaurando um período de intervenções federais, tensionado pela Revolução Constitucionalista de 1932. Com a redemocratização de 1945, os governadores eleitos passaram a administrar um estado profundamente impactado pela industrialização e pela urbanização acelerada, o que exigiu novas formas de planejamento e ação governamental. Já durante o regime militar (1964–1985), apesar das eleições indiretas, São Paulo consolidou uma administração de caráter tecnocrático, fortemente orientada à infraestrutura e ao planejamento estatal.

A partir de 1982, com a retomada democrática, o papel do governador foi novamente redefinido, incorporando agendas de descentralização, participação social e enfrentamento de problemas metropolitanos complexos. Desde os anos 1990, e com maior intensidade nos anos 2000, a gestão paulista passou a enfatizar reformas administrativas, políticas sociais, parcerias público-privadas, uso sistemático de indicadores e estratégias de comunicação política. Os acervos documentais — progressivamente digitais — permitem acompanhar essa trajetória, revelando a crescente complexidade administrativa e a mediatização da figura do governador no contexto contemporâneo.

Figura 13. [Constituição do Estado de São Paulo, Lei nº 15, de 11 de novembro de 1891] Fundo BR SPAPESP SEINT – Secretaria do Interior do Estado de São Paulo.

Para este episódio, o local emblemático escolhido para tratar do tema será o Pateo do Colégio e o Arquivo Público do Estado. Em 1892 o Governo do Estado criou, subordinada à Secretaria do Interior, a Repartição de Estatística e Arquivo do Estado, com o objetivo de apurar dados indispensáveis à Administração, na forma de estatísticas, e zelar pelos originais de toda a documentação administrativa do Estado, de interesse público e histórico. Dentro da Secretaria de Governo da Província havia uma seção específica para coletar informações e produzir dados estatísticos; porém um trabalho regular e criterioso nesse sentido só começou a ser desenvolvido após a criação da Repartição de Estatística e Arquivo do Estado.

Entre os primeiros desafios da nova Repartição estava o de produzir dados seguros sobre o crescimento populacional, com vista a auxiliar no planejamento do saneamento da capital. A Repartição produziu também mapas estatísticos sobre o movimento de entrada e saída de imigrantes no Estado e de eleitores nos municípios paulistas, além de colher elementos sobre a produção agrícola do Estado, úteis para propaganda. Outra importante função da Repartição era operar como uma espécie de arquivo central da Administração, recebendo os documentos findos das Secretarias de Estado.

Os documentos mais antigos sob sua guarda eram transcritos e publicados numa coletânea com o título de Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo. Com a extinção da Secretaria do Interior em 1931, a Repartição foi transferida para a Secretaria da Educação e Saúde Pública. Neste grupo estão ofícios produzidos pelos diretores da Repartição de Estatística e Arquivo do Estado e encaminhados ao Secretário do Interior, tratando dos trabalhos estatísticos, da gestão de funcionários, concurso para amanuense, verbas, despesas, publicações, recolhimentos e a respeito da Comissão nomeada para avaliação e descarte de documentos.

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